Com vocês o texto de Roberta Calza, nossa prepapadora corporal e professora de bufão, feito especialmente para Cia. Humbalada:
BUFÕES NA HUMBALADA por Roberta Calza 
É possível considerar treinamento e a máscara do bufão como uma redundância. Falar da máscara do bufão pressupõe falar em preparação, em construção e, portanto, em tempo. O território dramático do bufão, ou melhor, a composição de um estado bufonesco começa muito antes de qualquer suposta prova de figurino ou de espuma ao redor do corpo, ela requer um espírito investigativo para derivar no que chamamos de estado. Cativar um estado, constituir uma lógica, experimentar isso dentro de uma deformidade física e acima de tudo ter algo a dizer através desse estilo teatral faz com que aqueles que queiram mergulhar nesse território estejam dispostos a prescindir do tempo. E então o estado se torna uma aventura a ser conquistada com calma. Os bufões, como conta a Idade Média, são personagens do cotidiano que utilizam da sátira como artifício de comunicação. Sua comicidade passa pela “moquerie”: qualidade zombeteira que coloca sempre o outro, o indivíduo ou a situação em evidência e freqüentemente em profunda exposição. O bufão tem uma lógica particular e já diziam os reis uma lógica acima de qualquer suspeita, pois eram os únicos a garantir sua cabeça no pescoço. Essas figuras de entretenimento medieval exploravam seu cotidiano como tema e expurgavam ao seu redor suas opiniões, muitas vezes ácidas. 
Quando Jacques Lecoq em meados dos anos 50 propôs a seus alunos inspirarem-se nessa figura em busca de um nível de jogo, a dimensão bufonesca ganhou corpo, espaço e pesquisa, e em contraponto ao palhaço, buscou a crítica ao outro como base de trabalho. Garantiu uma função pedagogia na escola pelo exercício da crítica. Desde então o que se vê é um estilo teatral muito livre e em constante renovação, algo a ser sempre reinventado já que fala de seu tempo. Claro, que nesses 50 anos foi constituída uma pedagogia a respeito e nesse sentido o treino pode ser considerado responsável pelo desenvolvimento dos apontamentos. A companhia Humbalada de teatro quando me convidou para fazer parte do projeto me deixou muito curiosa, porque a pergunta que rondava a minha cabeça era- como uma companhia tão jovem faria para encontrar a contundência e a força da crítica necessárias para falar pelo bufão, além de assumir posições firmes frente ao mundo e devendo para isso serem tão severos? O tempo de trabalho com a companhia mostrou-me que nossa realidade e nossas escolhas quando sinceras tem muito potencial de trabalho e dá condições para que então o material humano ao nosso redor seja observado com franqueza. Muitas vezes eles encontraram provocações definitivas e claras sobre o que viam. O grupo amadureceu e pela seriedade da pesquisa tornou-se pontudo e direto. Esse treinamento ou preparação foi desenvolvido na pedagogia lecoquiana integralmente, passando da observação a transposição da realidade para o salto maior: a criação Os corpos vieram e com eles em um exercício muito especifico e norteador, o tal estado e a lógica de funcionamento apareceu. Passamos pelo grotesco, visitamos e mistério e temos o fantástico para alcançar. A aventura foi forte, profunda e revigorante, a jovem companhia tem o que dizer de sua vizinhança e tem o que mostrar com leveza e acidez, com deformidades comuns a sociedade e com a seriedade que um treinamento requer. Da disciplina aprendemos a criar e a respeitar a criação no tempo. Espero que esse encontro apenas inspire o início de uma pesquisa bufonesca maior e longa e que eles possam compartilhar com seu entorno essas descobertas tão íntegras. (essas imagens são do pintor Bosch utilizadas como estudo durante o processo de treinamento)
Escrito por Bruno às 15h14
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